Este blog não morreu...

Postado por Vitor Sousa , segunda-feira, 30 de agosto de 2010 14:45

A única função deste micro-post é dizer o que o título já disse.
É a mais pura verdade: este blog não morreu.
Quem morreu fui eu!
Quer dizer... na verdade, estou terminando de escrever meu Trabalho de Conclusão de Curso. Na prática, é como ter morrido para algumas coisas.

É isso.

Uma homenagem para o meu pai

Postado por Vitor Sousa , segunda-feira, 9 de agosto de 2010 17:53

Ontem resolvi transformar num pequeno conto uma das minhas memórias de infância.

Às vezes, fico pensando sobre o que me teria influenciado a gostar de escrever. Minha lembrança mais antiga acerca desse assunto é o episódio que segue abaixo. Já fazia tempo que eu queria registrar essa lembrança, então aproveitei a ocasião ontem.

Fica a minha homenagem e agradecimento ao meu pai.

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A Cartinha
por Vitor Sousa

Todas as manhãs, o menino ligava a TV e assistia a seu programa favorito. O bacana mesmo era ver os desenhos animados, mas, entre uma animação e outra, a moça da TV fazia brincadeiras com a meninada da plateia, fazia propaganda dos brinquedos, convidava um artista mirim para cantar e sorteava cartas.

A moça assentava-se sobre centenas (talvez milhares) de cartas espalhadas no chão de sua nave espacial multicolorida, ajuntava um pequeno monte e lançava ao ar, agarrando a correspondência do felizardo do dia. O conteúdo das cartas parecia sempre o mesmo: um beijo para a moça, um breve comentário dos desenhos que mais gostava e um pedido de brinquedo. Os pedidos encantavam o menino porque eram sempre atendidos.

De repente, uma ideia ocorreu-lhe. Aquele brinquedo caro que passou no comercial, por que não arriscar a sorte e escrever, ele mesmo, uma cartinha para a moça fazendo seu pedido. Como não tinha pensado nisso antes? Lembrara, meio frustrado, ainda não sabia escrever direitinho.

A ideia já quase morria dentro de si, quando pensou: “vou pedir ajuda a meu pai!”.

O pai surpreendeu-se quando o menino saiu do quarto com uma folha e um lápis na mão. “Meu pai, o senhor me ajuda a escrever uma cartinha pra moça da TV?”, questionou assentando-se à mesa, empolgado.

- Que legal, filho! Você trouxe também a borracha?

- Não precisa... só tem que escrever um pouquinho.

- Mesmo assim, é bom pegar a borracha. – Diante do pedido, o menino obedeceu. Pegou a borracha, entregou ao pai e tomou novamente seu lugar e, ansioso, passou a escrever a sua cartinha.

“Mossa da televisaum...”, começou ele. “Olha só, filho...”, interrompeu o pai já no comecinho, “viu como é bom trazer a borracha... não é assim que se escreve ‘moça’... é com cê-cedilha. Apaga aí e escreve direitinho. ‘Televisão’, também não é assim... o final é com a, o e til. Apaga aí também”.

Por essa o menino não esperava. O pai aproveitou-se do seu pedido para lhe dar aulas de português. Assim era golpe baixo! O menino ainda tentou passou o comando do lápis para o pai, mas já era tarde. “Não, meu filho... escreva você mesmo. Tá ficando muito bom”.

Hoje o menino nem lembra mais de tudo que escreveu. Mas tem plena certeza de que caiu em todas as armadilhas da “última flor do Lácio” antes de terminar sua cartinha. Ele ainda lembra que assistia a todos os programas da moça da TV torcendo para que sua cartinha fosse sorteada. Em certo momento chegou a duvidar se a correspondência realmente foi enviada para o programa. Mas, coincidência ou não, o pai acabou comprando-lhe o brinquedo que queria.

O menino, hoje vivendo na cabeça de um homem já crescido, fica pensando sobre tudo que aprendeu naquele dia.

Primeiro o pai lhe ensinou que os erros fazem parte da caminhada humana, mas a gente precisa mesmo é ter a coragem de carregar a borracha para apagar o que não saiu direitinho. No final das contas, a vida é mesmo tabula rasa onde a gente vai escrevendo nossas histórias. O bacana mesmo é aprender com os próprios erros. “Errar é humano”, repetia sempre o pai, “repetir o erro é que é burrice”, completava.

Depois mostrou ao menino que, pra quem quer “roçar a língua na Língua de Luís de Camões”, é preciso ter respeito – ainda que seja pra escrever uma cartinha. E não é que o menino tomou gosto pelo negócio.

Naquela época, o menino pensou que era um tremendo azarado por não ter visto sua carta sorteada pela moça da TV. Hoje ele sabe que foi sortudo demais, e agradece, por ter tido um pai que lhe ensinou a escrever aquela cartinha.

Talvez, se a história tivesse sido diferente, hoje o menino não entregaria essa cartinha nas mãos do pai.