Toda gestação é promessa e esperança de nova vida. Vida que está para além da criança que é gerada no ventre da mãe. Porque, não importam quão caóticas sejam as realidades e as circunstâncias que cerquem a chegada de um bebê, tudo muda quando o choro infante corta o ar tal qual sagrado canto que poucos têm o privilégio de ouvir.
E foi ali, naquela noite, que Belém - favela do mundo -, diante dos olhos de um carpinteiro e de uma jovem mãe, conheceu a paz do Menino-Deus. Pela primeira vez, anunciavam-se a redenção de todos e a reconciliação de todas as coisas. Ali já não importava mais a pobreza dos pais. Ali já não importavam mais as desconfianças em torno da sua concepção e gestação. E nem o subjugo romano. E nem o domínio do pecado. Um menino nos nasceu, um filho nos foi dado. E todo caos silenciou enquanto Deus-conosco saciava sua fome de humanidade.
Sei da importância do sagrado memorial de pão e vinho, corpo e sangue, que compartilhamos em comunhão. Da morte redentora que anunciamos até que Ele venha. Mas quando vejo a vida gestada nas moças é que me lembro do evangelho do Menino-Rei-de-Paz.
Esperança e promessa. É tudo o que vejo no ventre de quem carrega um bebê. Promessa de que aquilo que um dia foi “noite de amor”, noutro tempo será “noite de paz”. Esperança de que essa paz se perpetue vencendo todo caos.
A tradição das canções natalinas sempre se mostrou como um espaço frutífero para a reflexão sobre o sentido dessa tão importante data no calendário cristão. Assim, a coisa mais comum nesse universo tão específico é encontrar letras que procuram, justamente, lembrar que por trás da celebração existem inúmeras questões que não caberiam nessa humilde postagem. Mas o certo que é, via de regra, as canções mais reflexivas são aquelas de melodias mais lentas, mais introspectivas. (Aqui eu devo acrescentar que esta é a opinião de um leigo, com o mínimo conhecimento da teoria musical).
O que me chama a atenção na música de hoje é a maneira escolhida por Assis Valente para inverter essa lógica. Confesso que só consegui perceber a melancolia que essa “Boas Festas” esconde em sua letra quase ao final da adolescência. Tudo bem que eu seja meio tapado, mas você há de concordar que a melancolia é muito bem disfarçada pela melodia feliz criada por Valente. E se você ouviu dezenas de vezes aquele disco do harpista desconhecido então, nem se fala!
O certo é que, de lá pra cá, não tem nenhuma música de Natal que melhor traduza para mim a realidade do nosso país: um povo que, logo cedo, se acostuma com a verdade de que “Papai não vem” e que, ainda que a felicidade “fosse uma brincadeira de papel”, a sacola do bom velhinho não conta com esse item.
Tem gente que simplesmente não gosta do Natal. E nem imagine que seja o caso de gente “do mal”, deprimida ou desiludida com a vida e humanidade. É gente boa, gente bem resolvida. Para esses, as festas típicas do fim do ano poderiam ser facilmente retiradas do calendário. Pensando sobre isso, consegui separar os argumentos dos descontentes com os festejos natalinos em duas correntes paralelas de pensamento.
De um lado temos aqueles que criticam não apenas o lado capitalista da festa, essa coisa da corrida desenfreada pelos presentes, mas também os falsos sentimentos que as pessoas se vêm obrigadas a expressar nessa época. Você pode ser infeliz o ano inteiro, mas não no Natal. Pra falar melhor, EU posso te fazer infeliz o ano inteiro, mas não no Natal. A verdade é que, os que assim pensam, cansaram mesmo foi da falsidade de ter que viver em APENAS um dia aquilo que deveria ser experimentado ao longo do ano inteiro.
Do outro lado temos a turma que advoga outro tipo de falsidade. É que, para esses, toda essa festa que se comemora a cada 25 de dezembro tinha como alvo outro aniversariante. Ao que tudo indica, Jesus nasceu em março. E pra piorar, quem sabia o dia exato não fez questão de registrar em documento. E pra piorar mais ainda, Jesus nunca pediu aos seus discípulos para comemorarem seu aniversário. Se essa prática só tomou corpo uns três séculos depois da morte de Cristo e dos seus primeiros seguidores, porque que a gente insiste em perpetuar esse costume?
Devo dizer que me sinto muito à vontade de falar dessas linhas de pensamento. Em determinados momentos da vida, já usei de ambas como bandeira. Mas, curiosamente, nunca desgostei do Natal. E eu acredito que um dos motivos paa isso tenha sido compreender o seu real sentido.
Para mim, o Natal é Cristo. Ponto.
Sei que Ele não nasceu em 25 de dezembro, mas o importante é que nasceu pra mim quando compreendi a singeleza revolucionária de sua mensagem.
E essa mensagem, realmente, só faz diferença se for vivida todos os dias. Mas se tem gente que, aos troncos e barrancos, só consegue vivê-la nos últimos dias do ano, que seja. Para mim já tá valendo.
Houve um tempo em que o universo das músicas natalinas, para mim, resumia-se naquele manjado disco com horrendos arranjos executados por um harpista desconhecido. Se você visitou algum shopping center nos últimos dias, deve saber exatamente do que eu estou falando. Parece que os lojistas acreditam piamente que o tal “Espírito do Natal” é essa entidade que só se evoca quando esses acordes preenchem o ambiente. Meu imaginário, então, ficou marcado por essa junção da música com o comércio. Toca a música, eu lembro das lojas, que, por sua vez, me lembram que terei que gastar dinheiro com presentes. Simples assim.
Talvez por isso eu tenha cultivado, por muito tempo, certa aversão às músicas natalinas. Até o dia em que um amigo me entregou um pequeno “kit de iniciação” com uns ou quatro três álbuns natalinos. Eram as mesmas músicas de sempre, SÓ QUE NÃO as mesmas músicas de sempre. Sabe quando você se sente feliz por não estar certo sobre alguma coisa? Foi exatamente assim. De avesso, tornei-me apaixonado por essas canções temáticas. É fácil encontrar no meu player, em qualquer época do ano, pelo menos uma dúzia delas.
E quando eu me apaixono por uma coisa, é fogo: viro garoto propaganda, sabe?! Mas como falar de uma coisa que você gosta sem ser chato? Como tentar conseguir adeptos para determinado gosto sem se tornar uma espécie de “Testemunha de Jeová”?
Daí que me veio essa ideia dessa série postagens com músicas de temática natalina. Até o dia 25 de dezembro de 2012, todos os dias postarei uma música.
E para provar que você deve esquecer de uma vez por todas aquela maldita harpa, a primeira música da série é um punk rock ácido da banda Garotos Podres! Depois de ouvir, espero que você enterre o “Espírito do Natal” que o comércio, ano após ano, insiste em manter vivo.
Faço uma breve interrupção na produção de textos do site para registrar que, neste dia 28 de novembro de 2011, criei um mascote para o site www.neurocirurgiabr.com, do meu amigo Julio Barbosa. Só mesmo um amigo pra me fazer "desenferrujar" a mão e voltar a desenhar!
Bom... demorou bem mais que uma semana, mas aqui está a segunda parte do artigo.
Boa leitura!
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No último texto, demonstramos as possíveis inclinações de uma igreja a partir da observação dos reflexos de sua prática espiritual focada, quase sempre, numa só pessoa da Trindade. Seja ela qual for (Pai, Filho ou Espírito), a igreja que age dessa maneira, pendendo apenas para um lado, está diante de um perigoso abismo: dividir o Indivisível.
Creio que quaisquer dessas igrejas, se questionadas, reafirmarão sua crença na Trindade. Acredito mesmo que cada uma delas jamais negue essa certeza, mas aquilo que funciona na teoria, deve também funcionar na prática, sob a pena de nos tornarmos tão hereges quanto os seguidores de Ário. Isso é tão importante porque o que está em jogo é a unidade.
Cristo, ao interceder em favor dos seus seguidores, roga “para que todos sejam um, Pai, como Tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós...” (João 17.21). Citando mais uma vez o pastor e escritor Ricardo Barbosa, “A partir da Trindade descobrimos que a comunhão e a amizade com Deus e o próximo não é mais uma opção num mundo cada vez mais individualista e autônomo. A comunhão e a amizade são a razão de ser do próprio homem. Deus é comunhão e foi assim que nos criou” (O Caminho do Coração, p.65, grifo nosso).
Esta compreensão trinitária dá sentido e significado ao ser pessoa, pois demonstra que a vocação cristã é essencialmente relacional. Assim, a missão cristã é, antes de tudo, um convite a esta vida comunitária e a Igreja é o sinal visível da presença trinitária de Deus na história, o que redundará num culto cristão também caracterizado por sua natureza trinitária onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo são adorados e glorificados como único e indivisível Deus. São estes os desafios que nos aponta Ricardo Barbosa em seu já citado livro (p. 67-78).
Assim, irmãos, estas verdades nos impulsionam a construir uma Igreja que se defina sempre através de um relacionamento de comunhão e amizade onde nossas ações sejam reflexo do amor do Deus Triúno.
A trindade é uma das doutrinas mais antigas da religião cristã. Embora não haja nas escrituras um texto que, explicitamente, se refira a esta doutrina, a ideia de um só Deus que se apresenta em três pessoas que, embora distintas entre si, são plenamente divinas e unas, está presente e perpassa todos os textos da Escritura Sagrada.
Entretanto, não são poucas as controvérsias a respeito do tema. Seja na antiguidade, com os seguidores de Ário contrapondo-se aos ensinos de Atanásio, ou na contemporaneidade, com os seguidores de Charles Russel contrapondo-se à todas as vertentes do cristianismo.
Talvez por isso, a igreja tenha uma dificuldade de vivenciar este tão importante conceito em sua vida prática.
O pastor e escritor Ricardo Barbosa aponta para os reflexos possíveis desse comportamento na espiritualidade das igrejas. Comumente observamos a existência de igrejas que demonstram um exacerbado legalismo, porque se pautam exclusivamente no Deus-pai. Outras se mostram demasiadamente carismáticas, porque dão maior evidência às ações do Deus-Espírito. Por fim, há também aquelas que, plenamente centradas no Deus-Filho, tornam-se humanizadas.
Aí estão três perigos extremamente danosos à vida da Igreja que não se atenta para a importância da Trindade como modelo de espiritualidade. Eis um desafio para nossa geração: como podermos refletir a Trindade em nossa prática? Sobre isso, falaremos na próxima semana.