Bom... demorou bem mais que uma semana, mas aqui está a segunda parte do artigo.
Boa leitura!
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No último texto, demonstramos as possíveis inclinações de uma igreja a partir da observação dos reflexos de sua prática espiritual focada, quase sempre, numa só pessoa da Trindade. Seja ela qual for (Pai, Filho ou Espírito), a igreja que age dessa maneira, pendendo apenas para um lado, está diante de um perigoso abismo: dividir o Indivisível.
Creio que quaisquer dessas igrejas, se questionadas, reafirmarão sua crença na Trindade. Acredito mesmo que cada uma delas jamais negue essa certeza, mas aquilo que funciona na teoria, deve também funcionar na prática, sob a pena de nos tornarmos tão hereges quanto os seguidores de Ário. Isso é tão importante porque o que está em jogo é a unidade.
Cristo, ao interceder em favor dos seus seguidores, roga
“para que todos sejam um, Pai, como Tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós...” (João 17.21). Citando mais uma vez o pastor e escritor Ricardo Barbosa,
“A partir da Trindade descobrimos que a comunhão e a amizade com Deus e o próximo não é mais uma opção num mundo cada vez mais individualista e autônomo. A comunhão e a amizade são a razão de ser do próprio homem. Deus é comunhão e foi assim que nos criou” (O Caminho do Coração, p.65, grifo nosso).
Esta compreensão trinitária dá sentido e significado ao ser pessoa, pois demonstra que a vocação cristã é essencialmente relacional. Assim, a missão cristã é, antes de tudo, um convite a esta vida comunitária e a Igreja é o sinal visível da presença trinitária de Deus na história, o que redundará num culto cristão também caracterizado por sua natureza trinitária onde o Pai, o Filho e o Espírito Santo são adorados e glorificados como único e indivisível Deus. São estes os desafios que nos aponta Ricardo Barbosa em seu já citado livro (p. 67-78).
Assim, irmãos, estas verdades nos impulsionam a construir uma Igreja que se defina sempre através de um relacionamento de comunhão e amizade onde nossas ações sejam reflexo do amor do Deus Triúno.
A trindade é uma das doutrinas mais antigas da religião cristã. Embora não haja nas escrituras um texto que, explicitamente, se refira a esta doutrina, a ideia de um só Deus que se apresenta em três pessoas que, embora distintas entre si, são plenamente divinas e unas, está presente e perpassa todos os textos da Escritura Sagrada.
Entretanto, não são poucas as controvérsias a respeito do tema. Seja na antiguidade, com os seguidores de Ário contrapondo-se aos ensinos de Atanásio, ou na contemporaneidade, com os seguidores de Charles Russel contrapondo-se à todas as vertentes do cristianismo.
Talvez por isso, a igreja tenha uma dificuldade de vivenciar este tão importante conceito em sua vida prática.
O pastor e escritor Ricardo Barbosa aponta para os reflexos possíveis desse comportamento na espiritualidade das igrejas. Comumente observamos a existência de igrejas que demonstram um
exacerbado legalismo, porque se pautam exclusivamente no Deus-pai. Outras se mostram
demasiadamente carismáticas, porque dão maior evidência às ações do Deus-Espírito. Por fim, há também aquelas que, plenamente centradas no Deus-Filho, tornam-se
humanizadas.
Aí estão três perigos extremamente danosos à vida da Igreja que não se atenta para a importância da Trindade como modelo de espiritualidade. Eis um desafio para nossa geração:
como podermos refletir a Trindade em nossa prática? Sobre isso, falaremos na próxima semana.
Entre os leitores da Bíblia, o Apóstolo Paulo sempre figurou entre os personagens mais queridos, talvez por conta do seu extenso “currículo”: escritor da maior parte do Novo Testamento, missionário responsável pela expansão inicial do Cristianismo no mundo antigo, referencial de conduta e modelo a quem devemos imitar (1Coríntios 11.1) e, até mesmo, considerado como um santo para a Igreja Católica.
Entretanto, ainda na adolescência, na medida em que tinha meus primeiros contatos com o texto bíblico, fiquei espantado quando li as palavras do próprio Paulo a respeito de si: “...Cristo Jesus veio ao mundo salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior” (1Timóteo 1.15). Meu espanto só existiu porque naquela época eu ainda não havia compreendido algo muito importante acerca daquele homem de Deus: ele era tão humano quanto eu.
Alguns anos antes de Paulo, Jesus havia condenado os religiosos de sua época (os fariseus) por conta da falsa aparência que estes insistiam em demonstrar. Estes julgavam estar acima dos outros seres humanos somente por serem religiosos. “Sepulcros caiados”, era como Jesus os chamava, “bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de toda imundícia” (Mateus 23.27). O Apóstolo Paulo segue pelo caminho inverso, demonstrando toda a fraqueza de sua natureza humana.
Só pode agir como o Apóstolo Paulo aquele que entendeu que é demasiadamente humano. Aquele que sabe que, em sua essência, é capaz das piores atrocidades que a humanidade já teve notícia, pois entende que é no coração humano que nascem os “maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’” (Marcos 7.21-23).
Quem tem vontade de agradar a Deus com um coração sincero, precisa seguir estas pegadas. Hoje, depois de outras leituras da Bíblia e uma razoável caminhada cristã, eu posso dizer que discordo do Apóstolo Paulo, tão somente porque sei que, dos pecadores, o pior sou eu.
O livro de Jó registra a história de uma interessante aposta. Satanás, o inimigo de nossas almas, tem a audácia de desafiar Deus. “Já perdeu!”, talvez você diga apressado, achando que o Coisa-ruim ia ser besta de apostar alguma coisa que dependesse do Senhor. Mas o que está em jogo é uma das coisas mais enganosas de que se tem notícia: o coração do homem (
Jeremias 17.9).
"Será que Jó não tem razões para temer a Deus?", questiona Satanás,
“acaso não puseste uma cerca em volta dele, da família dele e de tudo o que ele possui? Tu mesmo tens abençoado tudo o que ele faz (...) estende a tua mão e fere tudo o que ele tem, e com certeza ele te amaldiçoará na tua face”. (Jó 1.9-11).
Comentando sobre o assunto em seu livro
O Caminho do Coração, o pastor e escritor Ricardo Barbosa esclarece que
“o que Satanás desconfia é da motivação, dos interesses ocultos. Ele quer ver se é possível para o homem buscar a Deus e adorá-lo sem nenhuma expectativa de recompensa” (p.27).
A acusação satânica é mais do que apenas uma constatação da natureza humana. O inimigo de nossas almas tem a audácia de culpar a Deus pela falha no “projeto-humanidade”: “Sua criação ama, muito acima de ti, as tuas bênçãos!”, subentendemos.
Olhando para o “evangelho” que se propaga pelas rádios e TV’s de nosso país, onde o discurso vigente é exatamente de que “Deus tem uma bênção pra você, por isso não deixe de vir à igreja X, mande sua oferta para a obra Y e participe da campanha Z”, fico imaginando o quanto essas pessoas, sem perceber, estão contribuindo para que Satanás vença a aposta.
Gosto de pensar que essa aposta hoje depende de mim. Minha oração, a cada dia, é que eu jamais dê espaço à tentação de me relacionar com Deus motivado por aquilo que Ele tem a me oferecer. Saber que só o Senhor é Deus deve ser razão suficiente para que meu coração possa temê-lo, adorá-lo e louvá-lo.
A data da minha ordenação pastoral coincidiu com a chegada da primavera no hemisfério sul. Como se sabe, a primavera é a estação do ano marcada pelo equinócio de setembro, ocasião em que o dia e a noite têm a mesma duração. A partir de então, os dias, gradualmente, vão se tornando mais longos que a noite, até a chegada do verão. Não é de admirar que a chegada dessa estação, desde há muito, esteja ligada à renovação das esperanças! E esperança é sentimento que não chega atrasado em ordenação pastoral.
Naturalmente, o novel pastor é alvo dos mais sinceros desejos de que tudo se vá bem na caminhada que ora se inicia. Por isso mesmo, durante esses dias, tenho recebido as manifestações carinhosas dos parentes e amigos. A sinceridade e a generosidade que acompanham cada gesto têm me emocionado bastante, o que me faz exultar da mais pura e verdadeira alegria. Dessa esperança boa, confesso, não quero jamais saciar-me.
Entretanto, contrariando toda essa boa dádiva, há um tipo de projeção que paira o ar dos ambientes religiosos e que é fruto de uma histórica distorção dos princípios bíblicos. Falo daquela impressão que se tem de que o pastor se transforma, como que num passe de mágica, num ser acima do bem e do mal que goza de plenos poderes espirituais e que, por isso mesmo, está imune às dificuldades inerentes aos reles mortais que compõem o resto da humanidade. Exagero meu? Talvez. Mas pra muitos é assim mesmo que funciona. Botou um paletó, virou homem de aço.
Só quero lembrar que até o
Superman tem seu dia de
kryptonita. E que nenhum pastor é Super.
Eu poderia usar este espaço para listar tudo que eu espero ser como pastor, ou mesmo tudo que eu
NÃO espero. Mas isso se transformaria num texto longo e entediante... e convenhamos, o tédio não combina comigo. Por isso, quero apenas registrar um desafio. Posso até mudar de opinião lá pra frente, mas nesse momento eu penso que será o maior dos desafios que enfrentarei no ministério: conciliar a função pastoral e a minha humanidade.
Eu sei, não vai ser fácil. Mas o que posso fazer, por hora, é aproveitar a coincidência da chegada da primavera para praticar aqueles que podem ser os mandamentos mais negligenciados do Cristo (pelo menos em nossa geração):
“Olhai para as aves do céu... Olhai para os lírios do campo...” (Mt 6.26,28). O que me conforta é saber que posso desfrutar da companhia do Deus que se revela nas coisas simples. Se das aves e flores Ele tem cuidado tão bem, em suas mãos entrego a minha caminhada.
E vou assim, de primavera a primavera,
“caminhando e cantando e seguindo a canção; aprendendo e ensinando uma nova lição”.
Em Cristo, que em sua infinita sabedoria se fez humano,
Vitor Sousa.
Ali no comecinho do Sermão do Monte, Jesus revelou aos seus discípulos algo muito importante sobre a maneira como deveriam atuar no mundo. Usando as simbologias que lhe eram características, Jesus lhes disse: “Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, como restaurá-lo? Não servirá para nada, exceto para ser jogado fora e pisado pelos homens” (Mateus 5.13).
Quando olho para a realidade do Evangelho em nossos dias, fico pensando o quão distante nós estamos do cenário proposto por Jesus. Não que ache que nossos irmãos “perderam o sabor e já não sirvam para nada”. O problema é que parece que nós exageramos na dose. Aliás, “exageramos” é apelido! Eu acho é que os crentes pensaram que Jesus disse: “Vocês são o sal da terra. A partir de agora, saiam por aí e troquem toda a comida que há no mundo por sal! Sal, sal, sal... muito sal!”
De repente, o almoço que deveria alimentar a muitos, ficou salgado demais, pro meu gosto! A boa notícia é que a gente ainda tem a chance de começar novamente.
O que Jesus queria dizer pra gente era bem simples: as coisas no mundo estão meio sem sabor, meio sem graça... vocês, então, vão se misturando aí. Sabe quando vamos saber que está bom? Quando ninguém perceber que estamos por aí, mas ainda assim comentarem: “eu não sei o que é, mas esse negócio tá gostoso”! É que, na culinária de Jesus, o sal não ganha elogio. O que ganha elogio é a comida.
Bon appétit!
“Como a corça anseia por águas correntes, a minha alma anseia por ti, ó Deus”. (Salmos 42.1)
O poeta bíblico conseguiu transformar nesta bela imagem aquilo que nós inegavelmente percebemos: todo ser humano é movido por “uma força” que o impulsiona a uma relação com Deus. Eu compreendo que a origem dessa “força” pode ser explicada pelos primeiros capítulos do livro bíblico de Gênesis, onde se lê que Deus, ao criar o ser humano, compartilhou com ele a sua “imagem e semelhança”. É esse “pedaço de Deus em nós” que nos impulsiona a uma relação com o Divino. Lembrar de uma pedra-imã pode nos ajudar a entender essa relação. Quando passamos um pedaço maior de pedra-imã próximo a outros menores, estes são imediatamente atraídos.
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| Detalhe da pintura "A Criação de Adão", de Michelangelo (Capela Cistina) |
Ao longo da sua história, a humanidade foi criando alvos aos quais direcionava essa grande força que o impulsionava a algo maior. Trabalho, riqueza, família, amigos, a natureza, ou mesmo a autossatisfação, tentavam preencher o espaço que Deus deixou em cada um de nós. Mas no fim das contas, continuávamos a ser atraídos. Acredito que assim, a gente possa explicar a grande diversidade de “divindades” que a humanidade já criou, mas nenhuma delas jamais foi capaz de corresponder a essa atração que nos move.
Por isso mesmo, Deus, em sua infinita misericórdia, revelou-nos qual deve ser o alvo e direção de nossas vidas. O apóstolo Paulo escreveu que Deus nos “revelou o mistério da sua vontade, de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, de fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas, na dispensação da plenitude dos tempos” (Efésios 1.9-10). Bendito seja Deus, que não apenas nos deu uma “inexplicável” sede, mas também nos indicou a inesgotável fonte de Água Viva, Jesus Cristo.